Segurança em eventos de grande porte: O que vai muito além das catracas e dos seguranças, com Ernesto Kenji Igarashi

Diego Rodríguez Velázquez
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Ernesto Kenji Igarashi

Quando uma arena com 60 mil pessoas se enche em poucas horas, o que separa um evento memorável de uma tragédia não é o número de seguranças na entrada, pontua Ernesto Kenji Igarashi, ex-coordenador da equipe tática da Polícia Federal durante a visita do presidente americano George Bush, em 2006. É a qualidade do planejamento que aconteceu semanas antes, a capacidade de comunicação entre equipes durante o evento e a velocidade de resposta quando algo sai do roteiro. A gestão de segurança em grandes eventos é uma disciplina complexa, multidisciplinar e ainda subestimada por organizadores que confundem presença física com proteção real. 

Se você planeja, contrata ou autoriza segurança para eventos, este artigo pode mudar a forma como você toma essas decisões. Leia até o final.

Por que o controle de acesso é apenas a superfície de um sistema muito mais profundo?

A catraca eletrônica e o detector de metais são os elementos mais visíveis de qualquer operação de segurança em eventos. São também os mais facilmente contornados quando não há nada além deles. O controle de acesso físico cumpre uma função essencial de filtragem inicial, mas opera como a primeira linha de uma defesa que precisa ter pelo menos três ou quatro camadas adicionais para ser considerada minimamente robusta. Quando uma organização investe todo o seu orçamento de segurança em portões e revista de entrada, está protegendo o limite externo enquanto deixa o interior completamente exposto a dinâmicas que nenhum detector consegue antecipar.

Como destaca Ernesto Kenji Igarashi, a gestão de fluxo de pessoas dentro do evento é um dos fatores mais críticos e menos discutidos. Aglomerações súbitas em pontos de gargalo, como saídas de emergência mal sinalizadas, banheiros insuficientes para a capacidade do local ou áreas de alimentação concentradas em um único ponto, criam condições para esmagamentos, conflitos e acidentes que independem de qualquer ameaça externa intencional. Tragédias históricas em festivais e estádios ao redor do mundo foram causadas não por ataques, mas por falhas no planejamento de circulação interna que nenhuma câmera de segurança poderia ter prevenido por si só.

A integração com serviços de emergência é outro componente que frequentemente aparece apenas no papel. Ter um plano de evacuação registrado na documentação do evento é muito diferente de ter esse plano testado, comunicado a todos os setores da equipe e coordenado com o corpo de bombeiros, o SAMU e a polícia local. Eventos de grande porte que funcionam com segurança real estabelecem salas de comando conjunto, com representantes de todas as forças envolvidas, capazes de tomar decisões coordenadas em tempo real. A ausência dessa estrutura transforma qualquer incidente de médio porte em uma crise de comunicação antes mesmo de se tornar uma crise operacional.

Ernesto Kenji Igarashi
Ernesto Kenji Igarashi

Quais são as ameaças que o planejamento de segurança precisa considerar além das óbvias?

Conforme Ernesto Kenji Igarashi, o planejamento de segurança eficiente parte de uma matriz de ameaças que vai muito além do clássico cenário de briga ou tumulto. Eventos de grande porte são alvos potenciais para ações com motivação política, ideológica ou simplesmente oportunista, e a análise de inteligência prévia ao evento deve considerar o contexto específico de cada ocasião. Um show internacional com artista politicamente controverso apresenta perfil de risco completamente diferente de uma final de campeonato regional, e tratar os dois com o mesmo protocolo genérico é uma negligência operacional que pode ter consequências graves.

Ameaças cibernéticas e à infraestrutura crítica do evento são uma categoria que ganhou relevância crescente nos últimos anos. Sistemas de controle de acesso digital, aplicativos de ingressos, equipamentos de sonorização e iluminação, e até a rede elétrica do local são vetores de vulnerabilidade que uma equipe de segurança moderna precisa considerar. Um apagão estratégico em um local fechado com dezenas de milhares de pessoas cria condições de risco que nenhum segurança treinado para contenção física está preparado para gerenciar sozinho. A convergência entre segurança física e cibersegurança deixou de ser uma preocupação exclusiva de grandes corporações e passou a ser uma realidade operacional em qualquer evento de porte significativo.

Como estruturar o comando de segurança para que a resposta a incidentes seja realmente eficiente?

A estrutura de comando é onde a maioria das operações de segurança em eventos falha silenciosamente. Equipes numerosas sem hierarquia clara, sem rádios compatíveis entre si, sem um único ponto de coordenação e sem um responsável designado para cada tipo de ocorrência são mais um problema do que uma solução em momentos de crise. O modelo de Sistema de Comando de Incidentes, adaptado da experiência de bombeiros e forças de segurança americanas, oferece uma arquitetura de gestão que funciona exatamente porque define com precisão quem decide o quê, quem informa a quem e como os recursos são mobilizados sem que todo o sistema espere por uma única pessoa.

O treinamento conjunto das equipes, envolvendo seguranças particulares, staff do evento, voluntários e forças de segurança pública, é uma etapa que a maioria dos eventos de médio porte simplesmente ignora por questões de custo ou prazo. Segundo Ernesto Kenji Igarashi, o resultado é que cada grupo opera com seu próprio protocolo, sua própria linguagem e sua própria percepção sobre o que constitui uma situação de alerta. Quando um incidente real acontece, o tempo perdido em comunicação entre grupos que nunca treinaram juntos pode ser determinante para o desfecho. Simulações parciais, mesmo que breves, realizadas nas horas que antecedem a abertura do evento, têm impacto mensurável na coesão operacional.

A avaliação pós-evento é o componente mais subestimado de toda a operação. A maioria das organizações considera o evento encerrado quando o último espectador sai e o local fecha. Profissionais sérios de segurança sabem que o debriefing estruturado, com registro de todos os incidentes, quase acidentes, falhas de comunicação e pontos de tensão identificados, é o que transforma uma experiência operacional em conhecimento institucional. Esse conhecimento acumulado é o que permite que cada evento subsequente seja sistematicamente melhor protegido do que o anterior.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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